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Zanskar, o refúgio tibetano escondido

26/10/2017
Sua Santidade, o Dalai Lama falou sobre a importância de manter as tradições tibetanas vivas
Em cinco dias de trabalhos, foram atendidos mais de 800 pacientes

Por Andrei Polessi. Especial para a The Traveller

Desde a invasão chinesa no Tibete em 1950, a cultura tibetana foi fortemente reprimida e aos poucos vem beirando a extinção. Entretanto, existe um refúgio – escondido na fronteira da Índia com o Paquistão, incrustado nos Himalaias –, que ainda guarda os segredos deste povo e suas tradições. Integrando o trabalho de uma expedição médica voluntária no hospital de Sua Santidade, o Dalai Lama, pude conhecer de perto as belezas deste santuário, seu povo e seu legado religioso.

O conceito de “lugar remoto” deixa de ser algo relativo e se torna palpável, quando se leva cinco dias para chegar a um destino. Celulares não funcionam, a eletricidade é uma incógnita, e o Brasil vira um país que ninguém sabe onde fica. Minha parada final era a pequena Padum, capital administrativa de Zanskar, no extremo norte da Índia, entre o Paquistão e o Tibete: a mais pura definição de “lugar no meio do nada”.

O local fica isolado do mundo nove meses por ano, de setembro a maio. A neve toma conta das estradas e das passagens nas montanhas.

Só para se chegar lá, já é um desafio: voamos até Doha, depois Délhi. De lá, voamos até Leh. Depois, são 450 quilômetros em SUVs 4x4, feitos (com sorte) em dois dias de estradas esburacadas e sem acostamento, entre asfalto e terra, entre caminhões na contramão, e travessias de rios de degelo, e pneus beirando precipícios a mais de 4.400 metros de altitude (Pensi La Pass), de onde não se enxerga o fim. Inclua deslizamentos bloqueando a estrada e carros com eixos quebrados pelo meio do caminho. Pronto, você chegou a Padum.

O pior – ou o melhor – é que vale a pena encarar cada centímetro deste caminho para conhecer este paraíso único! Com pouco mais de mil habitantes, o lugar conta com uma dezena de vilas ao seu redor, cercadas de mosteiros centenários e paisagens de tirar de tirar o fôlego – com os Himalaias, sempre emoldurando tudo. Foi a convite da americana Valerie Hellermann, diretora da Hands on Global, ONG criada exclusivamente para cuidar das atividades médicas de voluntariado ligadas ao hospital de Zanskar, o Sowa Rigpa (Dalai Lama Hospital), que fomos à Índia. Construído com recursos do The Dalai Lama Fund, o hospital foi criado para tratar pacientes, tanto com a medicina ocidental (medicina moderna), quanto com a medicina tibetana – através de atendimentos em conjunto com os amchis (curandeiros locais que praticam a antiga medicina tradicional do Tibete, com tratamentos alternativos).

O próprio Dalai Lama presenciou a importância do trabalho realizado para a melhoria da qualidade de vida da comunidade local. E foi durante um encontro com Valerie e sua equipe, que ele fez um pedido enfático e irrecusável ao grupo: “Vocês têm que dar continuidade a este trabalho” – disse ele. Um lugar tão remoto e que fica isolado tanto tempo por ano, precisa de um centro de saúde que possa oferecer amparo a essa população tão carente e desassistida.

Foi assim que o Instituto Dharma (instituição da qual eu e a médica Karina Oliani somos cofundadores, e que desde 2015 realiza ações humanitárias no Brasil e no mundo), organizou a ida de 11 voluntários brasileiros, com duas médicas de emergência, uma ginecologista, uma pediatra, dois fisioterapeutas, um cardiologista, um psicólogo e um mestre de Reiki, além de um cinegrafista e um fotógrafo (eu!). Somados à equipe de 14 americanos, entre médicos, enfermeiros e especialistas, totalizamos 25 pessoas. Em cinco dias de trabalhos, foram atendidos mais de 800 pacientes. Dentre estes, alguns casos de emergência, onde ter a equipe especializada à disposição, efetivamente fez toda diferença. Fechamos os trabalhos de maneira inesquecível, numa audiência com Sua Santidade, o Dalai Lama. Ele falou sobre a importância de se manter as tradições tibetanas vivas, e sobre como o budismo pode ajudar a curar uma série de patologias da sociedade moderna, principalmente as psíquicas. 

Particularmente, o “caminho do meio” dos budistas, me parece um curso sensato, de respeito e de aceitação da pluralidade de outras formas de pensar – o que entendo, deveria ser a base de construção de qualquer crença religiosa: a percepção de que não há verdade absoluta, mas várias verdades que se interseccionam, se complementam e confluem, como diferentes rios, para o mesmo mar. Talvez esse seja o segredo da beleza e da alegria do povo de Zanskar. Pessoas humildes, que vivem com muito pouco, mas que carregam no olhar a serenidade e a sabedoria do respeito e da compaixão ao próximo.

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