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Rota do Chá

25/07/2018
A caravana contava com 40 cavalos e trinta guias tibetanos, além de 30 toneladas de material. (Foto Thomas Goisque)
No camp, os jantares eram à luz de velas e as conversas entravam noite a dentro. (Foto Thomas Goisque)

Texto Juliana Angotti. Fotos Thomas Goisque*. Especial para a The Traveller

Mais do que mudar de país, foi quase como mudar de planeta: da movimentação ruidosa de Paris às paisagens inexploradas de Yunnan, região da China que faz fronteira com Myanmar, Laos e Vietnã. Aterrissei em Shangri-La, a 3.160 metros de altitude e fui direto para o mosteiro budista de Songzanlin, cuja semelhança com o Potala – o palácio do Dalai Lama, no Tibete –, e a vista da Cordilheira do Himalaia impressionam. Talvez pela sensação de bem-estar que me trazem, sempre gostei dos mosteiros budistas da Ásia e da “música” das orações sussurradas pelos monges. E ao me despedir da loucura do dia a dia, comum de qualquer grande cidade, comecei a respirar melhor. Trinta minutos de estrada cercada de montanhas nos levam ao Camp Liotard, uma fazenda de pedra e de madeira, restaurada por Constantin, um francês que mora nessa região há quase 20 anos. Em 1937, a Sociedade dos Exploradores Franceses foi criada por antropólogos, cineastas e exploradores, como Alexandra David-Neel, uma de minhas escritoras preferidas, que foi a primeira mulher ocidental a pisar em Lhasa, no Tibete, na época em que a cidade era completamente fechada para os estrangeiros.

A possibilidade de seguir seus passos pelo Tibete me enchia de emoção! Outro membro ilustre da sociedade, o geólogo Louis Liotard – morto na região, em 1940 – serviu de inspiração para a casa de Constantin, batizada como Camp Liotard, e para as Caravanes Liotard, expedições que revivem as antigas rotas do chá desde o século 7. Inspirada pelas histórias de Alexandra e Louis, embarquei na caravana. Logo no início da jornada, Constantin nos aconselha a ir com calma e preparar o corpo para o que vem pela frente. Caminhar com essa altitude acaba sendo bem difícil: o coração dispara por causa do esforço físico, perdemos o fôlego e temos que respirar profundamente para acalmar o sopro. Durante a subida, nos esquecemos de tudo e, praticamente, só nos concentramos nos passos que começam a deixar nossas pegadas pelo caminho. Ao redor, as paisagens incomuns são uma recompensa pelo esforço: florestas de larício e de pinheiros, torrentes e cascatas geladas, azaléas, montanhas cobertas de neve no horizonte.

Atravessamos a planície de Ringha com seus pastos cheios de yaks. Desfiladeiros acima de 4 mil metros de altura e a cadeia de montanhas de Yading complementam o cenário até chegarmos ao lago sagrado de Abouje. Por um momento, quebramos o silêncio para ouvir, solenemente, os ruídos da natureza. Os 60 quilômetros que percorremos a pé, em quatro dias de trekking por trilhas estreitas e não mapeadas, nos levam a descobrir lugares que estão completamente desconectados do século 21. Conforme o tempo passa, parece que nos conectamos novamente à essência de nosso mais primário “eu”. Todos os nossos sentidos trabalham para fazer o corpo funcionar. E enxergar, de longe, o próximo desfiladeiro, que será nossa próxima etapa de superação. É impossível não pensar nos grandes escritores e poetas – Henry David Thoreau, Rick Bass, Dan O’Brien, para citar alguns, que antes desbravaram os Himalaias. Durante o trajeto, me diverti com curiosidades contadas pelo meu guia como a travessia feita por um americano, chamado Joseph Rock, que foi enviado pela National Geographic Society para explorar a região. Para impressionar os Senhores do Tibete que permaneciam quase medievais, ele viajou com uma caravana que contava com criados e confortos como banheira, louça de porcelana, copos de cristal, tapetes e tendas, acreditando que este aparato garantiria sua segurança.

Nossa caravana nada deixa a desejar à realizada por Joseph Rock: quarenta cavalos, trinta guias tibetanos acompanhando todos os nossos passos, mais de duas toneladas de material – tendas Bell superconfortáveis (o Rolls Royce dos acampamentos!), camas, tapetes, almofadas, prataria e louças da Europa – já que, em cada parada, o descanso é merecido. Ao acordarmos, o café da manhã é servido quentinho, e durante as paradas que fazemos para o almoço, um equipado piquenique é montado.

Durante a tarde, somos surpreendidos com chazinho e scones saindo do forno. E antes dos jantares, que são servidos à luz de velas, aperitivos são preparados em meio a conversas animadas, que, se dependesse de nós, iriam varar a noite. Só posso dizer que os efeitos dessa odisseia, quase onírica, no espaço e no tempo, permanecem em meu imaginário. Basta fechar os olhos para reviver a paz e resgatar na memória as belas imagens da natureza ainda intocada que percorremos. Uma experiência  inesquecível e transformadora.

 

Quando ir
março a maio e outubro a novembro

 

Onde Ficar
Camp Liotard
Vale de Ringha
Uma antiga fazenda, hoje totalmente restaurada, serve de base para o acampamento localizado a poucos minutos de Shangri-la. As tendas montadas com todos os confortos modernos são o ponto de partida para as rotas de trekking tibetanas.

 

* Juliana Angotti é bisneta de exploradores, viaja pelo mundo há quase 20 anos buscando os melhores endereços de hotéis, galerias de arte e museus, restaurantes, boutiques e, principalmente, experiências únicas.

* Thomas Goisque é formado pela École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs de Paris, hoje é um dos principais fotojornalistas da Europa. Seus trabalhos já foram publicados por grandes veículos como National Geographic, Paris Match e Le Figaro, além de ilustrar cerca de 20 livros autorais. 

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