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Butão: uma viagem em busca da felicidade

07/06/2019

O benefício de uma viagem para lá? A chance de encontrar a felicidade nos lugares mais insuspeitos.

Por Gabriela Aguerre*. Especial para a The Traveller
Imagens: Christopher Michel


Nos anos 1970, quando Jigme Singye Wangchuck, da quarta geração de reis do Butão, criou o índice de Felicidade Interna Bruta, o FIB, não imaginava que também estava dando ao pequeno reinado dos Himalaias o seu slogan mais duradouro e poderoso. “Happiness is a place” resume o espírito da minúscula nação espremida entre a China e a Índia desde a época em que se abriu ao turismo, pouco mais de quatro décadas atrás. O primeiro grupo de 20 turistas que chegou, atravessando pelo norte indiano a fronteira de Bengala Ocidental, encontrou algo que bem poderia se assemelhar a uma imagem do Éden: um país que se manteve isolado durante séculos, praticamente rural, repleto de montanhas, rios, bosques, templos centenários e com a rarefeita densidade demográfica de sete habitantes por quilômetro quadrado - dois dos quais, monges budistas.

Não havia estradas, não havia televisão, não havia bancos. Seus habitantes vestiam-se com trajes quase formais, de tecidos com padronagens sóbrias; eles, sapatos lustrosos e meias pretas até o joelho; elas, saias longas e casaquetos de mangas largas com dobras em cores contrastantes. Foi do primeiro Druk Gyalpo (nome butanês que se dá aos monarcas e que significa “rei dragão”) a iniciativa de unir o pouco mais de meio milhão de habitantes em torno de suas tradições: as roupas, o idioma, as preces, as festas, a dança, a pintura, o arco e flecha. Gongsa Ugyen governou o Butão por 20 anos e por muito tempo foi adorado como herói. Tirando as belezas naturais, os templos, as tradições, a cultura e a religião - é o único país oficialmente budista do mundo, com uma assombrosa população de monges e monjas -, o resto pertence a um passado bem distante.

Hoje existem duas companhias aéreas butanesas, a Drukair e a Bhutan Airlines - o CEO dessa última tem o mesmo sobrenome do rei. No ano passado, visitaram o país 130 mil pessoas, grande parte da China e dos Estados Unidos, seis vezes mais do que dez anos atrás. Turismo é uma força econômica importante, que dá emprego a mais de 20 mil pessoas. As melhorias em infraestrutura aparecem gradativamente em forma de saneamento, eletricidade, estradas pavimentadas. Investimentos estrangeiros são bem-vindos, sobretudo na hotelaria, que conta com belíssimos resorts, discretos e harmoniosos em relação à paisagem. Há 50 mil automóveis, mais da metade em Thimpu, a capital. Queixar-se do trânsito é um hábito recente na cidade que ainda não possui semáforos de trânsito - um guarda de uniforme impecável garante com sinais de braços e um apito que dois carros não atravessem o cruzamento principal ao mesmo tempo. A televisão começou a entrar no país junto com a Copa do Mundo de 1998 – futebol é curiosamente uma paixão nacional. O Butão colocou os pés no século 21 devidamente conectado à internet, e hoje cibercafés e mensagens pelo celular são uma realidade, assim como uma programação de cinco horas diárias de tevê local.

Aquele rei que criou o FIB abdicou em benefício de seu filho, Jigme Khesar Namgyel, um jovem cientista político formado em Oxford. Desde 2008 ele governa não mais soberano, pois o país se abriu à democracia, tornou-se uma monarquia constitucional, com direito a eleições diretas e primeiro-ministro, cargo ocupado por Tshering Tobgay, MBA em Harvard e figurinha carimbada em palestras do TED e do Fórum Econômico Mundial. Jetsun Pema, a bela rainha de grandes olhos amendoados e cabelos longos, tem página no Facebook, onde os seguidores podem acompanhar o crescimento do Gyalsey (príncipe), o fofíssimo bebê de pouco mais de um ano que já virou cartão-postal e fundo de tela - material produzido pelo yellow.bt, site de divulgação das ideias bem-intencionadas e dos feitos do rei. Que, aliás, tem costeletas que o deixam algo parecido a Elvis Presley, de quem é fã declarado.

Como vai ser
Você vai chegar pelo aeroporto de Paro, o único terminal aéreo internacional, que recebe voos de Bangladesh, Índia, Tailândia e Nepal. Em um dia claro, verá o Everest pelas janelas do lado esquerdo do avião. A aterrissagem também será emocionante: a pista de pouso, curta, tem diante de si um imenso paredão montanhoso. A altitude de Paro: 2.195 metros acima do nível do mar, o suficiente para você sentir uma leve leseira, como se flutuasse. Alguém estará esperando por você: as viagens sempre são em programas organizados ou monitorados pelo governo, que autoriza a entrada de um número limitado de estrangeiros no país por uma quantidade específica de dias. Isso significa que tudo, além das passagens, é comprado de uma só vez: a estada nos hotéis, a alimentação, os traslados e o serviço do guia - é ele quem vai te receber.

Saberá seu nome, reconhecerá seu rosto. Estará pronto para responder às suas perguntas, que não serão poucas. Como funciona o FIB? Vocês são felizes mesmo? Essas roupas vocês usam o tempo todo? Por que os homens usam saias? Como vocês faziam sem televisão? O que são essas rodas imensas no meio das praças? Por que não vejo todas as pessoas sorrindo? Aos poucos você entenderá que o FIB é um índice que mede as condições de vida da população rural e urbana: todos respondem a um extenso questionário a cada dois ou três anos para informar aos governantes detalhes objetivos e subjetivos do dia a dia. A pesquisa leva em conta tanto questões concretas de moradia, trabalho e saúde quanto psicológicas e espirituais, além de todas as demais perguntas de um censo tradicional. Com os dados em mãos, o governo põe em prática ações globais e pontuais para melhorar a vida de todos, em um modelo complexo e original que tem sido observado e elogiado no mundo todo. Você aprende tudo isso.

A grande pergunta
Foi tudo isso que levou você ao Butão? Você pode ter vindo pelo slogan. Você pode ter vindo porque descobriu que parte de sua herança genética vem dos Himalaias; quem sabe até falem em dzonga com você pela rua esperando resposta. Você pode ter sido atraído pelo budismo ou pelo fascínio que a prática de mindfulness exerce em nós hoje em dia. Você quer aprender a meditar. Você quer ser feliz. Ninguém pode garantir que isso vá acontecer (com desculpas pelo spoiler antes do fim da viagem). Mas você está aqui. E se chegou até aqui é porque era o melhor momento para você: o agora. Então visitará o Rinchen Pung Dzong, do século 17, talvez seu primeiro dzong (antigas fortalezas) de muitos que verá pelo país, além dos goembas (templos) e dos ihakhangs (monastérios). O Butão tem cerca de 2 mil construções históricas, muitas que o Ocidente ainda nem conhece.

Tudo isso sem falar nas milhares de estupas distribuídas ao longo dos caminhos ou no meio dos campos, geralmente cercadas de bandeiras de oração, as coloridas e pequenas, ou as longas e brancas, fincadas no chão. Você seguirá para Thimpu, a maior cidade, passeará por Punakha, a antiga capital, irá até Bumthang, um vale quase encantado. Sempre com muita paciência, aceitando as dificuldades pelo percurso, a começar pela mão inglesa entre a montanha e o precipício e pela precariedade das estradas no interior. Você fará algum trekking, talvez o conhecido Tiger’s Nest, subindo 900 metros de altura por encostas íngremes e tendo como recompensa atingir um monastério inverossímil. Você vai ter todas as chances para refletir, se emocionar, olhar nos olhos do desconhecido e perguntar para ele: Como eu também posso te ajudar?

Você voltará diferente. Você voltará com um país no coração.

Quando ir
A melhor época é de setembro a maio. Entre dezembro e fevereiro, no inverno, os céus estão mais limpos durante o dia, e as temperaturas, agradáveis. O Ano Novo e o Carnaval no Butão podem ser surpreendentes, proporcionando experiências inesquecíveis.

Onde ficar
Six Senses Butham​

A rede Six Senses trouxe novidades ao Butão em 2019: a inauguração dos lodges Six Senses Thimphu, Six Senses Punakha e do Six Senses Paro em abril. Em outubro, o hotel também planeja a abertura dos Six Senses Bumthang e Six Senses Gangtey, com grandes possibilidades de já receber hóspedes até o fim do ano. As novas propriedades chegam ao Reino da Felicidade com o objetivo de refletir a essência do país através dos excelentes serviços, ótimos spas e da gastronomia primorosa.

Amankora
Em Paro, Thimphu, Punakha, Bumthang e Gangtey, os lodges Amankora proporcionam uma peregrinação circular pelo Butão. Uma experiência completa pela fé do povo butanês e por suas tradições, além de paisagens fascinantes. Contamos mais sobre o Amankora aqui.


*Nascida no Uruguai e criada no Brasil, a jornalista trabalha com viagens há 20 anos, tendo sido colaboradora e editora de diversos veículos. Foi diretora de redação da revista Viagem e Turismo, da Editora Abril, e atualmente se dedica a livros e literatura, entre outros projetos.

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